Todo arte

CAPA3

” Todo piso será palco, toda parede será mural, e a cidade inteira poesia”. Assim começa a nossa entrevista com Alberto Portugal. Aos 32 anos de idade ele acumula um notável portfólio em artes. No teatro amador, são 60 espetáculos escritos, dirigidos e apresentados em grande palcos. Dezenas de exposições de artes plásticas, dividindo galerias com importantes artistas. Prêmios na música popular, a direção de um centro cultural privado, a Casa das Artes do Tibagi. Portugal é autor dos livros “O Beto está ficando louco e ele está avisando” (2019, Editora Manifesto) e “Coração Andarilho” (2005, Editora Cescage), além de uma vasta pesquisa em poéticas visuais publicada, intitulada “Fé Néon – A imagem sagrada no século XXI” (2009, UTP). Acreditando se tratar de um instinto natural do homem, Portugal utiliza sua produção para o desenvolvimento de pesquisas nas áreas de artes cênicas e de artes visuais.

No evento intitulado “O papel do profissional artista na sociedade, com uma análise crítica debate: quem aqui é todo arte? 

É que é assim que entende a sociedade contemporânea, com seus bens de consumo, a riqueza do conhecimento coletivo e a construção diária da cultura que nos cerca. “O mundo precisa de arte, e não é a toa que países superdesenvolvidos investem nas artes tal qual investem em remédios, em infraestrutura”, destaca.

Em uma irreverente conversa, trouxe ao público de Bravo! a sua rotina, os seus anseios e a sua produção teatral.

Bravo!- Há quanto tempo você trabalha com teatro?

Alberto: Comecei a me interessar há muito tempo pelo teatro. Mas foi nessa busca incessante pela satisfação que o descobri como ofício. Posso dizer que ainda não sou um profissional das artes, porque faço outras coisas pra complementar a minha renda, e só serei um verdadeiro profissional quando conseguir (oxalá!) viver só disso, só do que amo.

WhatsApp Image 2019-04-10 at 09.53.30Bravo!- Muitos atores já passaram pela sua direção, em diversas idades diferentes. Como é a direção teatral de Alberto Portugal?

Alberto: Me esforço ao máximo pra ser um cara legal. Sei muito bem como é passar por escolas e por diretores mesquinhos. Tento ser um diretor generoso, que escuta, que aceita sugestões e principalmente que não crie obstáculos ou traumas na carreira dos atores. Isso não significa ser mole e não agira com rigor. Mais de trezentas pessoas já passaram pela cia. que dirijo. Claro: nem todos eram atores. Já tivemos muitos profissionais com formação, e tivemos muitos frustrados redescobrindo a paixão pelo teatro. De “mamando a caducando” tivemos gente em nosso grupo. É maravilhoso, e eu amo o que faço. O resto vai acontecendo naturalmente.

IMG_0047Bravo! – Sobre os seus textos, são coisas muito diferentes, onde não é possível encontrar uma unidade que te referencie. De dramas extremos a comédias ‘pastelão’, a sua obra em algum momento terá características que demonstrem a sua autoralidade? 

Alberto: Luto contra isso todos os dias. Não quero ser o dramaturgo que as pessoas assistam e identifiquem com “olha, isso tem cara de Alberto”. Quero ser o cara que todo mundo ache menos importante que o texto em si. Acho que será um processo inevitável, mas prefiro a cada dia escrever uma coisa diferente. E me apaixonar por todas elas. Como você disse, dramas extremos, como em Somos uns Boçais, e comédias pastelão, como em Retrógradas e Ultrapassadas, o que importa é discutir, estudar e apresentar. Gosto de um teatro prático, sem muita firula.

Bravo!- Explique mais… o que seria um teatro prático?

Alberto: Não gosto de desmerecer as instituições de ensino. Seria hipócrita se fizesse isso. Mas no meu trabalho, no meu tipo de teatro, eu gosto é da prática. De aprimorar as coisas no próprio palco. Acho que muitas vezes o excesso de técnica acaba prejudicando o resultado final. Teatro tem que ser laboratório, enredo, sentir a história e encenar. Sem buscar referências técnicas e teóricas pra cada produção. Ser mais direto.

Bravo!- Quanto tempo se leva entre escrever o texto e a primeira sessão. É possível contabilizar?

Alberto: Difícil. Tudo depende muito. Mas a média é de oito meses em produção. Depende da sintonia entre o elenco, da entrega. Quando o texto está pronto, e o elenco disposto, em pouco tempo temos um espetáculo.

Bravo!- São quase 60 produções. Quais você mais gostou de escrever e dirigir?

Alberto: Todas têm a sua história e sua importância na minha carreira. Gosto muito de cada uma delas de uma forma diferente. Aconteceram peças que não tiveram bons resultados, outras que começamos e abandonamos. Teve algumas que não tinham a menor chance e se se tornaram grandes espetáculos. Até uma que ensaiamos durante um ano inteiro, e acabou não sendo apresentada por algum motivo que nem eu mesmo sei (risos).

Bravo!- Mas queremos saber, qual sua comédia favorita? Como ator, não só como diretor.

Alberto: eu não saberia dizer, mas o público insiste em Post Mortem (2017). Eu fiz o Nelias, o dono da funerária.

SOMOSBOCAISBravo!- E um drama que te marcou?

Alberto: O melhor ainda está por vir. Estou apostando uma ficha grande em Oito Putos, a história de oito garotos de programa e o que os motivou a entrar nessa vida. Também gostei muito do resultado de Somos uns Boçais, que teve três montagens e falava da fragilidade das relações humanas.

Bravo!- Como você vê o cenário cultural no Paraná?

Alberto: Quando comecei, eu sempre ouvi que o Rio de Janeiro era o único local possível para a arte contemporânea brasileira. Acho que as coisas mudaram muito de dez anos para cá, e tenho sentido que o movimento cultural paranaense tem ganhado muito mais espaço. As pessoas estão valorizando mais a arte local, e os grandes centros têm ofertado mais produtos culturais, com mais qualidade e com mais acesso à população. O poeta já disse “todo artista tem de ir aonde o povo está”, e é nisso que acredito. Onde tiver espaço, a gente vai.

 

 

Manoel Bueno,
da editoria Bravo!